Todo apoio à independência do Curdistão iraquiano! Fora Iraque, Turquia, Irã, Síria e tropas estrangeiras dos territórios curdos!

O maior povo sem pátria do mundo, agora decidiu ter uma pátria. 92,73% dos curdos da região hoje ainda sob a bandeira do Iraque votaram a favor do “sim” à independência! Esta região estava sob forte opressão do Iraque há décadas, especialmente sob o regime ditatorial de Saddam Hussein, cujo regime, quando foi derrotado, deixou espaço para a tomada das cidades do norte do país, habitadas e reivindicadas pelos curdos.

Mundo - 18 de outubro de 2017

O maior povo sem pátria do mundo, agora decidiu ter uma pátria. 92,73% dos curdos da região hoje ainda sob a bandeira do Iraque votaram a favor do “sim” à independência! Esta região estava sob forte opressão do Iraque há décadas, especialmente sob o regime ditatorial de Saddam Hussein, cujo regime, quando foi derrotado, deixou espaço para a tomada das cidades do norte do país, habitadas e reivindicadas pelos curdos.

Desde então, os curdos iraquianos convivem com a realidade de tentar administrar as cidades sob seu controle e manter a luta armada através de inúmeras batalhas, inicialmente contra xiitas ou sunitas do novo governo iraquiano, ou, principal e mais recentemente, contra o Estado Islâmico, que construiu parte de seu califado sobre terras curdas do Iraque e da Síria, e nunca escondeu o desejo de eliminar os curdos.

Os curdos têm cerca de 30 milhões de pessoas, sendo a quase totalidade habitantes dos territórios hoje ocupados pela Turquia, Iraque, Síria e Irã. Os curdos iraquianos são quase 6 milhões de pessoas (15% da população do país), sendo 5,2 milhões de eleitores, dos quais 72% participaram da votação.

Contando com um exército próprio (os peshmergas), relativa autonomia política (que inclui um parlamento autônomo e um presidente, Masoud Barzani) e bastantes recursos financeiros, após libertar as cidades do norte do Iraque e assumir a expressiva produção de petróleo da região, os curdos iraquianos são os mais organizados administrativamente dentre os 4 países.

No Irã, os curdos são vítimas de uma opressão brutal por parte do regime dos aiatolás; na Turquia, são os principais alvos das medidas ditatoriais do presidente Erdogan, que empreende um genocídio contra os curdos, maioria no leste do país; e, na Síria, apesar da heroica resistência das guerrilhas curdas, que libertaram Kobane e áreas controladas pelo Estado Islâmico e construíram comunas locais, a guerra e a intervenção imperialista também ameaçam a sobrevivência deste povo. Assim, é no Iraque que há mais condições para medidas que apontem para a independência do Curdistão.

Todos os trabalhadores e aqueles que lutam contra a exploração e a opressão devem comemorar a realização e o resultado do plebiscito, que precisa ser levado a sério pelo governo regional e levar à declaração da independência, como passo da unidade de todo o Curdistão! No entanto, todos conspiram contra a autodeterminação curda.

Todos contra os curdos

Após o anúncio do resultado favorável à independência curda, praticamente todos os governos do mundo criticaram ou ameaçaram os curdos por sua escolha pela libertação nacional. Do outro lado, nenhuma única voz se ergueu para apoiá-los. Nem o Vaticano, nem a Venezuela chavista, nem Cuba, nem absolutamente ninguém dos tradicionais demagogos, nem do reformismo, nem de setor algum do imperialismo reconheceu o direito à independência curda. O que dá a ideia do desafio de levar adiante e aplicar a decisão expressa pela maioria da população.

Os imperialismos dos EUA e da União Europeia, bem como a ONU, condenaram que se tenha deixado o povo decidir, e exigem a renúncia à independência. O governo russo também deixou claro que não aceita um Curdistão independente. Todos eles querem os curdos oprimidos e esmagados sob a repressão dos governos dos países que ocupam a região, e que são semicolônias domesticadas e submissas a seus interesses.

As respostas mais agressivas, contudo, vieram do próprio Iraque e da Turquia, com ambos os países ameaçando bombardear e invadir militarmente a região curda do Iraque. O governo deste país declarou: “Não estamos dispostos a discutir ou dialogar sobre os resultados do referendo porque ele é inconstitucional”, afirmou al-Abadi, primeiro-ministro iraquiano. Ele também lançou um ultimato às autoridades curdas, intimando-as a ceder o controle dos aeroportos às autoridades centrais: “O governo decidiu proibir os voos internacionais de e para o Curdistão dentro de três dias se os aeroportos não forem entregues ao governo central”, sendo que os dois aeroportos do Curdistão são em Erbil e Sulaymaniyah. Esta poderia ser a primeira medida de um cerco e invasão da região.

O presidente turco ameaçou suspender o fluxo de petróleo e de caminhões com o norte do Iraque, e fazer os curdos “passarem fome”. “Eles serão abandonados à sua própria sorte quando começarmos a impor sanções”. “Será o fim quando fecharmos os oleodutos – todas as receitas deles irão desaparecer, e eles não serão mais capazes de encontrar comida quando nossos caminhões não seguirem mais para o norte do Iraque”. Erdgoan também cogita medidas militares contra os curdos iraquianos: “Eles não têm a menor ideia de como serem um Estado, acham que vão se tornar um apenas dizendo que são. Isso não pode e não vai acontecer”, declarou.

O Irã também realizou exercícios militares em áreas próximas à fronteira com o Curdistão do Iraque, como forma de intimidação. E, do outro lado, um repulsivo silêncio por parte de todo os que diziam defender os curdos em todos os últimos anos. Somente os próprios curdos têm exaltado a decisão e se somado aos conterrâneos no Iraque. No Irã, mesmo sob uma ditadura sanguinária, milhares de curdos invadiram as ruas das cidades de Baneh, Saghez e Sanandaj para celebrar o referendo dos curdos iraquianos. A demonstração popular, pouco comum no país, foi reprimida por policiais iranianos, mas o movimento saiu fortalecido. Da mesma forma, os curdos da Síria e da Turquia saem mais firmes e respaldados deste processo.

As direções curdas são burguesas ou capituladoras, e nenhuma é consequente com o direito à autodeterminação

Do lado curdo, a decisão tomada por Barzani foi extremamente importante, mas ele não tomou esta decisão pensando em levá-la adiante. Seu plebiscito era uma reivindicação popular há mais de 14 anos, quando Saddam foi derrubado. Neste meio tempo, Barzani atuou como um aliado burguês da ocupação militar do imperialismo norteamericano, e, depois da saída das tropas dos EUA, como um capacho do governo do Iraque, atuando como seu “sócio” na região, explorando o petróleo e os trabalhadores do seu próprio povo. E nunca avançou para a independência.

Barzani deixou os curdos da Síria abandonados quando estavam a ponto de serem massacrados em Kobane. Mandou seus peshmergas apenas quando o conflito já estava vencido pelas guerrilhas YPG e YPJ, e manteve suas tropas e blindados apenas na retaguarda da guerra. No Iraque, foi cúmplice da ocupação imperialista, e quer usar o plebiscito apenas para ganhar mais poder.

Contudo, a força das massas curdas, que expulsou o Estado Islâmico na Síria, e agora também foi à linha de frente na retomada de Mossul e na tomada de Kirkuk, ambas no Iraque, impuseram uma nova dinâmica à guerra e ao governo curdo. O plebiscito vem no caminho de “dar com uma mão” uma promessa de independência, em troca de desarmar o povo e silenciar a luta por emprego, direitos e demais aspirações curdas que o governo autônomo regional de Barzani, no Curdistão iraquiano, foi incapaz de prover.

Barzani, mesmo diante da hipótese de ter que ir bem mais além do que pretende, e ter mesmo que criar um pais independente, deixa claro qual seria a função de seu governo: “Fomos sempre um fator de estabilidade na região e continuamos sendo”, assegurando que quer ser parceiro do Iraque, Turquia, Irã, Síria, Israel, Estados Unidos, Rússia e de todos que já massacraram e seguem massacrando seu povo e os demais trabalhadores de seus países e do mundo.

Por sua vez, a direção curda da Turquia e da Síria, que atuam sobre bandeiras distintas, militares e legais, do YPG, YPJ, PKK, HDP, etc., mas que são, em essência, a mesma frente internacional, se recusa a chamar a independência curda. Em qualquer país que seja. O grande líder histórico do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), Abdulah Ocalan, cujo passado de combatente inspira centenas de milhares de lutadores, já abandonou a defesa de um Curdistão livre e soberano há muitos anos.

Sua nova teoria, que não passa da coexistência pacífica subordinada e subalterna a Estados burgueses terroristas, se chama “Confederalismo Democrático”. Esta teoria/justificativa serve perfeitamente para se moldar à prática de capitulação diante da opressão feita pelos governos de Erdogan na Turquia e Assad na Síria. Segundo ela, os curdos devem lutar por sua “identidade”, seu “poder”, suas “formas de representação”, mas seria irrelevante ter ou não ter um Estado livre e independente. Obviamente, esta “novidade teórica” é muito bem aceita nos círculos social-democratas e anarquistas, permitindo uma atuação pública mais confortável à direção do PKK, que deixa de ser “separatista”.

A teoria só não explica como seria possível este sonho de um território curdo, com cultura, organizações e poder curdo sob a bandeira de Estados inimigos dos direitos dos curdos por décadas. Na vida real, não há como conquistar liberdade nacional nem direitos democráticos sem a independência curda.

A independência dos curdos no Iraque seria um passo espetacular, ainda transicional, no sentido de unificar todos os curdos sob um mesmo Estado independente, livre e curdo, controlado pelos trabalhadores, que expropriasse a burguesia, garantisse a plena igualdade de gênero e avançasse no caminho do internacionalismo proletário. Um exemplo, aliás, que já vem sendo dado pelas experiências de Rojava, nas comunas curdas do norte da Síria.