ORGANIZAR A LUTA DOS TRABALHADORES

Além do recorde de greves, as ruas foram tomadas por centenas de milhares e até milhões de manifestantes nos últimos anos. Seja por motivos difusos ou de forma contraditória, o fato é que as manifestações de massa passaram a ser parte da realidade política do país. O repúdio geral aos governos, parlamentos e à política burguesa em geral, por sua vez, criam um cenário de luta, mas também de desesperança e de ceticismo de que possa haver mudança. Se sabe o que não quer, mas nem sempre o que deve vir no lugar. Saídas não convencionais passam a ser possíveis e a discussão de alternativas da classe trabalhadora é fundamental.

Movimentos | Nacional - 28 de abril de 2017

Vivemos um período extremamente importante para os trabalhadores. Ao mesmo tempo em que uma série de ataques ameaçam a maioria da população com a perda de direitos históricos, a resistência das ruas mostra que a classe trabalhadora está de pé, e pode derrotar os ataques e obter conquistas. O cenário de polarização social se agrava, refletindo: a) a crise histórica do capitalismo, que não consegue sair do atoleiro em que o mundo entrou desde a crise de 2008, e que se arrasta até hoje; e b) um processo de ascenso das massas que produziu dezenas de derrubadas de governo, revoluções e lutas no mundo todo.

Plenário deste Encontro Sindical

No Brasil, a polarização social, embora menos intensa, é marcada pela instabilidade dos governos e do regime democrático-burguês como um todo, assim como pelas lutas, que não cessam desde 2012. Ano após anos, batem-se recordes de greves e manifestações, ao mesmo tempo em que despenca a popularidade e confiança em governos e instituições, fenômeno expresso, por exemplo, na avalanche de votos nulos, brancos e abstenções, que chegaram a “ganhar” boa parte das últimas eleições municipais no Brasil.

Além do recorde de greves, as ruas foram tomadas por centenas de milhares e até milhões de manifestantes nos últimos anos. Seja por motivos difusos ou de forma contraditória, o fato é que as manifestações de massa passaram a ser parte da realidade política do país. O repúdio geral aos governos, parlamentos e à política burguesa em geral, por sua vez, criam um cenário de luta, mas também de desesperança e de ceticismo de que possa haver mudança. Se sabe o que não quer, mas nem sempre o que deve vir no lugar. Saídas não convencionais passam a ser possíveis e a discussão de alternativas da classe trabalhadora é fundamental.

Por um lado, por mais odiados que sejam governos e parlamentares, seus compromissos com os banqueiros, grandes empresários e capitalistas do campo, levam a que prossigam as iniciativas de atacar os trabalhadores. São propostas como o fim da formalização do emprego (com a liberação das terceirizações), a precarização dos direitos trabalhistas (a reforma trabalhista), o desmonte da Previdência Social, privatizações em grande escala, restrição ao direito de greve e de associação, etc. Porém, a reação também é enorme. Os estudantes, por exemplo, protagonizaram ocupações de escola no país todo em 2016 e, desde que foram a vanguarda no levante de junho e julho de 2013, estão cada vez mais presentes nas ruas. As mulheres vivem um ascenso impressionante, assim como se fortalecem as lutas e a organização de negros, LGBT+ e indígenas.

O resultado deste choque entre uma burguesia cada vez mais em crise e agressiva, contra um proletariado mais radicalizado, com menos ilusões institucionais e menos a perder, está em aberto. O desfecho deste choque, e a possibilidade da vitória dos trabalhadores, vai depender da nossa capacidade de organização e da generalização – ou não – das lutas. Precisamos de manifestações, mas também de um programa e de uma estratégia correta para construir a mudança.

É neste sentido que os bancários e os demais trabalhadores reunidos em São Luís, no Maranhão, nos dias 21 e 22/04, somos parte desta tarefa. A partir da convocação da Frente Nacional de Oposição Bancária (FNOB), e da adesão de oposições e sindicatos combativos pelo Brasil afora, realizamos um encontro histórico, que é uma pequena parcela do longo caminho que deve ser trilhado até a libertação da maioria da população da opressão e da exploração. O sindicalismo oficial e majoritário está politicamente falido e deve ser enterrado para que se possa impedir os retrocessos e avançar em nossas reivindicações.

CUT, CTB, Força Sindical e milhares de sindicatos pelegos, associações de moradores oportunistas e entidades estudantis, populares, do campo e de luta contra as opressões sustentadas por governos ou que vivem da conciliação de classes tiveram um efeito devastador sobre a classe trabalhadora. Não apenas impediram as lutas por décadas, como desmoralizaram o próprio sentido da luta e a esperança de que mudemos as nossas vidas. Nossa tarefa é reconstruir a confiança da classe em si mesma, resgatar valores que historicamente foram e são fundamentais (como a solidariedade e o apoio mútuo) e apontar a ação direta como meio de mudança, e a alternativa estratégica contra o capitalismo como saída política.

O momento exige uma ampla unidade de ação para lutar contra os patrões, governos, parlamentos e judiciário. Mas também exige um combate implacável às burocracias de sindicatos e do movimento social. São as direções traidoras quem têm impedido que as lutas tomem um volume capaz de impedir os ataques. E são elas mesmas uma parte destes ataques, como no caso da reforma trabalhista, que foi a CUT quem primeiro propôs; ou da Reforma da Previdência, que a Força Sindical está redigindo alternativamente com o governo Temer.

Diferentes formas de organização podem ser adotadas, por fora ou por dentro de centrais como a CSP-Conlutas. O fundamental é que os setores mais combativos, democráticos e classistas atuem cada vez mais juntos e firmes no combate contra toda forma de exploração, opressão e contenção dos trabalhadores. Tanto nos sindicatos que já foram conquistados pela base, quanto naqueles em que é a oposição quem defende estas propostas, é pela base que se constrói a saída!

Que outros encontros como o do Maranhão se repitam, e abram caminhos neste sentido. Que bancários,professores, trabalhadores dos Correios, metalúrgicos, estudantes, profissionais da saúde, do transporte, etc., cada vez mais se organizem de forma independente e também articulados entre si, fortalecendo ainda mais nossas lutas específicas e gerais!

CARTA DE SÃO LUÍS